Artigo: escritora americana critica retomada econômica sem considerar como conciliar filhos e trabalho

“Nós não estamos esgotados. Estamos sendo esmagados por uma economia que, de maneira desconcertante, declarou os pais que trabalham não são essenciais.” Essa é a opinião da escritora Deb Perelman, em um artigo publicado no jornal The New York Times, que discute o impacto da pandemia do novo coronavírus na vida das famílias e como a retomada econômica não está considerando como conciliar filhos e trabalho.

Na economia do covid-19, ou você tem filhos, ou você tem um emprego
Imagem de Chuck Underwood por Pixabay

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Depois de receber os detalhes do plano de reabertura das escolas de Nova York, a escritora constatou que, pelas diretrizes do Departamento de Educação da cidade, seus filhos só poderiam frequentar a escola uma em cada três semanas. Enquanto isso, os adultos – “pelo menos os sortudos que mantiveram seus empregos” – terão de voltar ao trabalho quando a economia reabrir. “O que é confuso para mim é que esses dois planos estão avançando rapidamente, sem qualquer consideração pelos pais que trabalham”, destacou.

Apesar do silêncio de muitos pais, Deb Perelman resolveu não se calar e destacou reações adversas, apresentando uma série de argumentos “tangenciais e irrelevantes que colocariam [os críticos] para fora de qualquer equipe de debate da escola”.

“Mas nem sabemos se é seguro mandar as crianças de volta à escola”. Apesar da assertividade do raciocínio, a escritora aponta que esse não é o tema central da discussão. Para sustentar sua argumentação, ela lembra da amiga que disse que, se a escola reabrir, seus filhos voltarão à escola (seja seguro ao não) porque ela não pode se dar ao luxo de não trabalhar.

Com ironia e uma dose de humor, a escritora desmantela os questionamentos como “por que você quer que os professores fiquem doentes?” e “você não deveria ter tido filhos se não pode cuidar deles” e “por que você não está aproveitando o tempo extra de qualidade com seu filho?”, com base em sua realidade como mãe.  Questões que ela rebate dizendo que elas expressam uma visão retrógrada da sociedade que naturaliza que os pais (ou melhor, mães) abandonem suas carreiras para cuidar dos filhos.

Deb Perelman lembra também que nem todas as famílias contam com o suporte dos avôs e avós ou então têm condições financeiras de contratar uma babá em período integral. Para ela, a política não pode ser guiada pela condição privilegiada de alguns. Mais do que uma preocupação emocional, ela diz que pais estão esgotados por serem atropelados pela engrenagem da economia.

Impacto na vida de pais e filhos

Ao relatar o cotidiano do seu lar nos últimos meses, a escritora esboça um cenário insustentável para muitas famílias – apesar de seu “privilégio significativo” – e enumera os impactos significativos da retomada na vida de pais e filhos. A começar pelo aprendizado das crianças, que não terão os pais – “seus novos professores (não) treinados” – para supervisionar os estudos em casa. Os filhos, por sua vez, se sentirão solitários e essa ausência de interações sociais fará com que demandem ainda mais atenção dos pais.

Sem falar nas crianças que não conseguem aprender remotamente ou naquelas que necessitam de planos de aprendizagem especiais. “Como os pais são esmagados pela economia covid-19, o mesmo ocorre com os filhos que precisam de mais apoio.”

Deb Perelman destaca ainda que as perdas profissionais para os adultos também serão incalculáveis ​​e afetarão desproporcionalmente as mães, que estão sendo empurradas para fora do mercado de trabalho ou para empregos de meio período, pois suas responsabilidades em casa se multiplicaram. Há também os casos das pessoas que “apertaram o pause” em seus projetos de carreira, mas que não terão outra solução a não ser abandoná-los.

Em sua reflexão, a escritora também inclui a sobrecarga dos professores, que devem gerenciar o aprendizado presencial e remoto dos alunos simultaneamente. E ela vai além: “Para professores com filhos em idade escolar, a situação não é apenas insustentável, é impossível.”

A autora do artigo publicado no jornal The New York Times reconhece que não há soluções fáceis para a reabertura das escolas. No entanto, ela se diz incomodada pela ausência de “soluções criativas ou mesmo plausíveis” por parte dos governantes depois de quatro meses de paralisação durante a pandemia do novo coronavírus.

“Permitir que os locais de trabalho reabram enquanto escolas, acampamentos e creches permanecem fechados demonstra a uma geração de pais que trabalham que é aceitável se eles perderem seus empregos, seguros e meios de subsistência nesse processo. É escandaloso, e temo que, se não fizermos a maior quantidade de ruído possível, seremos apagados da economia”, concluiu.

*Deb Perelman é escritora de Nova York e criadora do blog de culinária smittenkitchen.com.