Crianças têm alta carga viral de covid-19 e podem ser mais contagiosas do que adultos, aponta estudo de Harvard

Crianças têm alta carga viral de covid-19 e podem ser mais contagiosas do que adultos, aponta estudo de Harvard
Imagem de Isa KARAKUS por Pixabay

Ao contrário do que se sabia até agora, crianças têm alta carga viral de covid-19 e podem ser mais contagiosas do que adultos. Essa foi a conclusão dos pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, que integra a Escola Médica de Harvard, sobre o potencial de disseminação do novo coronavírus pelas crianças. O estudo, submetido ao periódico científico Journal of Pediatrics nesta quinta-feira (20), contraria trabalhos anteriores que minimizavam o papel dos pequenos na transmissão da doença.

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O trabalho, que teve o apoio de diversas instituições americanas, incluindo o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do governo e o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, avaliou 192 pessoas de 0 a 22 anos que deram entrada no hospital, das quais 49 testaram positivo para a covid-19 e 18 tiveram Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P).

Em média, a maioria dos pacientes que contraíram a doença no grupo amostral tinha entre 11 e 16 anos. Cerca de 27% apresentam uma comorbidade, a obesidade. Nenhuma delas tinha doenças cardíacas, pressão alta ou diabetes, que configuram grupos de risco. A síndrome rara ligada à covid-19, por sua vez, afetou principalmente crianças de 1 a 4 anos de idade.

“Nossos resultados mostram que as crianças não estão protegidas. Não devemos descartá-las como propagadores em potencial desse vírus”, disse Alessio Fasano, diretor do Centro de Pesquisa em Biologia e Imunologia da Mucosa do Hospital Geral de Massachusetts e autor sênior do estudo, à Harvard Gazette.

Os pesquisadores observaram que as crianças infectadas nas fases iniciais da doença apresentaram nível de coronavírus em suas vias aéreas significativamente mais alto do que adultos internados em unidades de terapia intensiva em decorrência de complicações da covid-19.

“Fiquei surpresa com os altos níveis de vírus que encontramos em crianças de todas as idades, especialmente nos primeiros dois dias de infecção”, disse Lael Yonker, diretor do Centro de Fibrose Cística do Hospital Geral de Massachusetts e principal autor do estudo.

Diante dos resultados, os pesquisadores alertam para risco “significativo” da reabertura das escolas. O argumento de que crianças transmitiam menos a doença foi usado em diversos países para justificar a volta às aulas, mas nem todos tiveram experiências bem-sucedidas, caso de Israel.

A descoberta da pesquisa de Harvard indica que as crianças podem ser um vetor de disseminação da covid-19 e apresentam um risco principalmente a famílias de nível socioeconômico mais baixo. No estudo, 51% das crianças com a doença integram comunidades de baixa renda em comparação com 2% de bairros mais favorecidos.

“Se as escolas forem totalmente reabertas sem as precauções necessárias, é provável que as crianças desempenhem um papel maior nesta pandemia”, apontam os autores.

Para reduzir o risco do retorno às atividades presenciais nas escolas, os especialistas alertam para necessidade de distanciamento social, uso universal de máscara, higienização constante das mãos e combinação de aprendizagem remota e presencial.