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Deixar ou não o bebê chorar?

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Se você é mãe ou pai, é bem provável que já tenha ouvido alguém te aconselhar a não dar muito colo para o seu bebê, para ele não ficar “mal acostumado”. Ou para não pegar seu filho imediatamente quando ele começa a chorar, pois ele precisa “aprender a esperar”.

Esse é um dos temas mais polêmicos da maternidade: deixar ou não o bebê chorar?

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Para o pediatra espanhol Carlos Gonzalez, um dos mais conhecidos do mundo, a resposta é um sonoro “não!”. O médico estará em São Paulo para um dia inteiro de palestras no próximo sábado, dia 19. Durante o encontro, o médico vai falar sobre as necessidades afetivas da criança e sobre alimentação infantil. Clique aqui para ver a programação e consultar os valores dos ingressos.

Gonzalez é um dos maiores defensores atuais da “criação com apego”, um estilo de criar os filhos que preconiza muito contato físico e um relaxamento nas regras, proibições e imposição de limites na maternidade.

Para conhecer sua linha de pensamento, a melhor porta de entrada é o livro “Besame Mucho” (Editora Timo), lançado em 2015 no Brasil. Gonzalez acredita que nossa sociedade moderna é muito pouco tolerante às mães e às crianças, e desenvolve seu raciocínio em torno dos três grandes grupos de tabus modernos em relação à criação dos filhos:

1 – Os relacionados com o choro: é proibido dar atenção a crianças que choram, pegar-lhes no colo e dar-lhes aquilo que querem.

2  – Os relacionados com o sono: é proibido fazer as crianças dormirem no colo ou mamando, cantar ou embalá-las para que adormeçam. Também é proibido dormir com elas.

3 – Os relacionados com a amamentação materna: é proibido amamentar a qualquer momento, em qualquer lugar; ou amamentar uma criança muito crescida.

Conforme aponta o pediatra, esses tabus têm uma coisa em comum: proíbem o contato físico entre mãe e filho.

Segundo Gonzalez, em uma situação normal, quando a mãe desfruta da liberdade de cuidar do filho como julga melhor, o bebê chora pouco e, quando chora, a mãe sente pena e compaixão. Mas quando a proíbem de pegar o filho no colo e dormir com ele, amamentá-lo ou consolá-lo, a criança chora mais e a mãe vive esse choro com impotência e, em longo prazo, com raiva e hostilidade.

“Todos estes tabus e preconceitos fazem as crianças chorar e também não fazem os pais felizes. A quem satisfazem então? Talvez a alguns pediatras, psicólogos, educadores e vizinhos que os defendem? Eles não têm o direito de lhe dar ordens, de lhe dizer como deve viver a sua vida e tratar o seu filho”, defende o pediatra.

Para Carlos Gonzalez, ninguém vai “estragar” os filhos se derem muito colo a eles, os consolarem quando estiverem tristes, não importa o motivo, ou os deixarem dormir na mesma cama. Pelo contrário, essas atitudes ajudariam a criar crianças mais seguras.

Choro 
Gonzalez explica, em “Besame Mucho”, que o imediatismo é uma das características do

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O pediatra Carlos Gonzalez

choro infantil que surpreende e aborrece algumas pessoas. Afinal, basta deixar o bebê no berço que ele começa a chorar como se o estivessem matando. “Para alguns especialistas em educação, esta constitui uma característica desagradável do caráter infantil e o objetivo é vencer o seu egoísmo e teimosia , ensinar-lhe a atrasar a satisfação dos seus desejos.”, diz.

Mas o choro imediato é o comportamento que a seleção natural favoreceu durante milhões de anos, porque facilita a sobrevivência. “Numa tribo, há 100.000 anos, se um bebê separado da mãe chorasse imediatamente e a plenos pulmões, a mãe provavelmente iria buscá-lo de imediato (…) o choro do filho desencadeava nela um impulso forte, irresistível, de acudi-lo e confortar. Mas se um bebê se mantivesse calado durante quinze minutos e depois começasse a chorar baixinho e apenas chorasse a plenos pulmões ao fim de duas horas, a mãe podia encontrar-se já demasiado longe para o poder ouvir. Esse grito tardio já não teria qualquer utilidade para a sua sobrevivência”, afirma o pediatra.

Ora, um bebê é muito pequeno para saber se sua mãe vai voltar ou não quando essa sai do seu quarto e o deixa no berço sozinho. “O seu comportamento automático, aquele que herdou dos seus antepassados ao longo de milhares de anos, será começar a pensar sempre no pior. Cada vez que se separa de você, seu filho irá chorar como se a separação fosse para sempre.”, diz Gonzalez.

Tudo bem, não vivemos mais em tribos e um bebê deixado sozinho em um berço não corre o risco de ser devorado por um predador. Mas o comportamento instintivo permanece. “Quando a leitora deixa o seu filho no berço, sabe que ele não vai passar frio ou calor, que o teto o protege da chuva e as paredes, do vento, que não será devorado por lobos ou por ratos, nem picado por formigas; sabe que estará apenas a alguns metros, no quarto ao lado, e que acudirá prontamente ao menor problema”, diz Gonzalez. Mas o bebê não sabe disso, explica o pediatra, e reage exatamente como teria reagido um bebê do Paleolítico. “O seu pranto não responde a um perigo real, mas a uma situação, a separação, que durante milênios significou invariavelmente perigo”, diz.

À medida que vai crescendo, afirma o médico, o seu filho irá aprendendo em que caso a separação comporta um perigo real e em que caso não tem qualquer importância. A criança poderá ficar tranquilamente em casa enquanto a mãe ou o pai vai às compras, mas começará a chorar se estiver perdido no supermercado. “Mas não será porque você, seguindo os conselhos de um livro qualquer, lhe ensinou a adiar a satisfação de seus caprichos”, afirma Gonzalez.

É claro que existem profissionais que pensam de forma diferente e acreditam que deixar o bebê chorar no berço e não pegá-lo no colo não causa traumas ou problemas futuros. Você poder ler algumas dessas opiniões distintas aqui e aqui.

Aqui em casa sempre fomos mais adeptos da criação com apego, mesmo quando ainda não conhecia esse termo. Nunca conseguimos deixar as crianças chorando no berço, sempre nos pareceu mais natural acalentá-las quando estavam incomodadas com alguma coisa. Eu, particularmente, não acredito que um bebê de meses é capaz de fazer manha ou usar o choro para manipular os pais. Bebês gostam de contato físico, de colo, e é claro que vão pedir por isso da maneira mais eficiente como sabem se comunicar: chorando.

Até hoje, com quase três anos, meus filhos gostam muito de colo, e nós damos sempre que pedem. E nem por isso eles são crianças inseguras ou grudadas demais comigo ou com o pai. Pelo contrário, são alegres, carinhosas, espertas e bem educadas (é claro que muitas vezes desobedecem ou fazem birra e malcriações, como qualquer criança, mas acredito que sejam  emocionalmente muito saudáveis).

E você, prefere seguir qual linha de criação? Pega seu filho no colo ao menor sinal de choro ou deixa o bebê chorar um pouco para se acostumar a ficar/pegar no sono sozinho? Compartilhe suas experiências nos comentários.