E quando o filho não quer irmãos?

Criar filhos não vem com manual. Por isso mesmo, muitas dúvidas pipocam na cabeça de mães e pais. Como lidar com o ciúme entre irmãos? Quando é hora de impor limites? O que fazer diante de comportamentos que preocupam? E por aí vai…

Na série “Cabeça de Criança Responde”, levamos questionamentos reais de famílias para especialistas em desenvolvimento infantil, educação e saúde mental. A proposta é oferecer orientação baseada em conhecimento técnico, respeitando as diferentes realidades familiares.

Foto: Alexander Mass / Pexels

Nesta edição, uma mãe compartilha sua angústia diante de uma decisão importante: ter ou não um segundo filho quando o filho mais velho, de 12 anos, demonstra forte resistência à ideia de ganhar um irmão.

“Tenho um menino de 12 anos e ter um segundo filho nunca foi uma opção por questões financeiras, apesar de sempre ter sido um desejo. Agora, por causa da idade, sinto que cheguei em um ponto em que preciso decidir. Eu e meu marido queremos muito ter outro filho, mas meu filho simplesmente odeia a ideia. Ele nunca pediu irmão e, sempre que alguém falava sobre isso ele ficava muito bravo. Ele tem ciúmes da minha afilhada, a mãe dela sempre fez questão de incluir ele em tudo, sempre que dá alguma coisa para ela, dá para ele também. Está me preocupando a forma como ele fala sobre ter um irmão”. Depoimento de A. R, de Araponga, Paraná.

A dúvida é de uma mãe que vive um dilema comum em muitas famílias: o que fazer quando o desejo dos pais de aumentar a família encontra resistência do filho mais velho?

Segundo a psicóloga e educadora parental Ana Paula Syqueira, embora a decisão final sobre ter ou não mais filhos pertença aos pais, é importante que a criança seja incluída no processo de forma respeitosa.

O filho deve participar da conversa?

Para Ana Paula, toda decisão que impacta a dinâmica familiar merece ser compartilhada com as crianças.

“Quando um casal está planejando ter outros filhos, essa criança precisa ser avisada. É respeitoso que ela participe desse processo. Quanto mais cedo essa conversa acontecer, melhor, porque, se houver resistência, os pais já podem começar a trabalhar essas questões.”

Incluir a criança não significa dar a ela o poder de decidir sobre a chegada de um irmão, mas permitir que expresse sentimentos, dúvidas e inseguranças.

Existe uma idade ideal para ter outro filho?

De acordo com a psicóloga, não há uma fórmula universal.

“Isso depende muito da dinâmica de cada família. Há casais que preferem ter os filhos próximos em idade e outros que precisam esperar por questões financeiras, emocionais ou de organização. Não existe uma indicação ideal. Cada família precisa considerar sua própria realidade”, diz Ana Paula.

Como lidar com o ciúme?

O relato da mãe também traz uma preocupação importante: o filho já demonstra ciúmes de uma afilhada da família e reage com irritação sempre que o assunto é um possível irmão.

Para Ana Paula Syqueira, o ciúme nem sempre pode ser evitado. “É muito difícil falar em evitar completamente o ciúme. O mais importante é conversar cedo, falar a verdade e colocar essa criança como protagonista da história. Ela faz parte desse processo”, afirma a psicóloga.

Quando a criança se sente incluída, tende a desenvolver maior senso de pertencimento diante da chegada do novo membro da família. Estar junto, participar das conversas e dos preparativos ajuda a naturalizar essa mudança.

Quando o ciúme exige atenção profissional?

Se a resistência for muito intensa, acompanhada de agressividade ou sofrimento emocional significativo, a orientação é buscar ajuda especializada.

Quando existe muito ciúme, muita rejeição ou agressividade, é importante procurar um psicólogo para entender o que está por trás dessa reação.

Ana Paula explica que o ciúme costuma estar relacionado a sentimentos de insegurança. “Muitas vezes, a criança cria fantasias de que será rejeitada, deixada de lado, quando o irmão chegar”, diz. Por isso, é importante compreender o que ela está sentindo e ajudá-la a elaborar esses medo, sempre reforçando que ela fará parte da vida do irmão e vice-versa, e nãos será menos amada.

Vale desistir de ter outro filho por causa da reação do mais velho?

Essa é uma das maiores angústias relatadas pela mãe. Para a psicóloga, a decisão precisa partir dos desejos genuínos do casal e não apenas do receio diante da reação da criança.

“A decisão de ter filhos está muito ligada ao autoconhecimento. Muitas vezes, as pessoas precisam parar e refletir se aquele desejo é realmente delas ou se estão apenas respondendo a uma pressão da sociedade”, diz.

Para Ana Paula, é importante que os casais construam um planejamento familiar alinhado aos seus valores e projetos de vida. E, se a mãe que enviou o relato tem tantas dúvidas em relação a ter filhos, ela pode até procurar uma terapia, para ela, para o casal ou para a família junta, para se autoconhecer, olhar para ela mesma e reconhecer seus desejos e demandas internas. A partir desse autoconhecimento, fica mais fácil tomar decisões que façam sentido para todos.

E depois que o bebê nascer?

Outra preocupação comum é como evitar comparações e disputas entre os irmãos.

Segundo Ana Paula, o segredo está no equilíbrio. Ela explica que nem tudo precisa ser dividido igualmente o tempo todo. Se um dos pais compra um presente para um filho, pode ser gentil lembrar do outro. Porém, em situações específicas, como aniversários, cada criança deve ter seu espaço respeitado. “No aniversário da Maria, os presentes são da Maria. No aniversário do João, os presentes serão do João. Cada filho precisa entender o seu lugar e o lugar do outro.”

A especialista alerta que tentar compensar todas as diferenças pode trazer consequências indesejadas.

“Quando tudo precisa ser exatamente igual o tempo inteiro, a criança não aprende a lidar com pequenas frustrações”, diz. E essas decepções são importantes para o desenvolvimento emocional.

Em resumo

Para Ana Paula Syqueira, a chegada de um novo filho pode despertar inseguranças, ciúmes e resistência, especialmente quando o mais velho passou muitos anos como filho único. No entanto, diálogo, acolhimento e participação costumam facilitar a adaptação.

E, quando os sentimentos parecem intensos demais, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante para que toda a família atravesse essa transição com mais segurança.

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